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Notícia: Provavelmente, o melhor vinho do mundo
Colocado por: Lusowine em Sexta, Agosto 15, 2008 - 02:51 PM GMT
Vinhos Será, por certo, um dos melhores vinhos do mundo, este Barca Velha, colheita de 2000, que vai chegar ao mercado no Outono. Seguindo uma receita que nunca é igual, sem alquimias, como explica Luís Sottomayor, o enólogo responsável, e que deixa sempre o mundo do vinho em grande expectativa.

António Freitas de Sousa

Se alguém, algum dia, decidir afirmar que determinado vinho é o melhor do mundo, pode esperar duas coisas: o sorriso complacente e desinteressado de parte muito pequena da concorrência e o ódio eterno da maioria dela. É por isso que, mesmo perante um vinho com o estatuto do duriense Barca Velha, o seu próprio enólogo responsável, Luís Sottomayor, prefere dizer: “Seria uma presunção da minha parte considerá-lo o melhor do mundo”.

Presunção ou não, o certo é que a chegada ao mercado de uma nova colheita de Barca Velha não é coisa a que se assista todos os dias. Nem todos os anos: produzido pela primeira vez em 1952 – pela mão experiente do enólogo Fernando Nicolau de Almeida, desaparecido em 1998 – apenas por 15 vezes nos últimos 56 anos, o vinho produzido nas terras altas do Douro foi suficientemente excepcional para a Casa Ferreira o declarar um Barca Velha. (Um parêntesis para os interessados: os anos são os que se seguem – 1952, 53, 54, 57, 64, 65, 66, 78, 81, 82, 83, 85, 91, 95 e 99).

É por isso que o mundo do vinho está sob grande expectativa para provar um novo Barca Velha, o da colheita de 2000, que estará nas garrafeiras do mundo dentro de um mês, dois o mais tardar. E bem precisam, as garrafeiras, de uma nova remessa de Barca Velha: um périplo por meia dúzia de casas especializadas em venda de vinhos e por dois ‘sites’ de vendas online permite concluir que a maioria deles ou já não tem nenhuma garrafa de Barca Velha há muito tempo ou, na melhor das hipóteses, tem um ou outro exemplar da colheita de 1999. Honra seja feita à portuense Garrafeira Velha Reserva, que afirma ter ainda exemplares de 1985 e aceitar encomendas para o de 1995; para a Jofre, que disponibiliza exemplares de 1995 e 1999; e para a Enoteca, que tem uma, apenas uma, garrafa de 1999.

E como são tão poucas as garrafas de Barca Velha disponíveis no mercado, o preço reflecte isso mesmo: a sua raridade. A mais em conta – se é que é possível dizer-se assim – está na Garrafeira Velha Reserva por 145 euros (para o exemplar de 1999). As restantes ultrapassam todas os 160 euros, podendo as de 1985 chegar aos 200.

O que, convenhamos, não é muito, dado que todas as garrafeiras que serviram de amostra ao périplo afiançam que o novo Barca Velha a estrear em poucas semanas nunca custará menos de 120 euros por garrafa.

Mais sorte têm os felizes e avisados sócios do Clube Reserva 1.500, fundado pela própria Casa Ferreira, para quem o Barca Velha 2000 já está disponível, pela pechincha de 75 euros a garrafa, eles que também foram os primeiros a provar o de 1999, por apenas 65 euros.

Um valor seguro para investir
Os preços podem parecer muito, mas são muito pouco. É que uma garrafa de Barca Velha também serve, para os que não a bebem – como instrumento alternativo de investimento. Ainda por cima seguro, desde que as garrafas não estejam em local onde possam partir-se facilmente, a ver pelos exemplos, poucos, que se podem encontrar.

Luís Sottomayor recorda o mais recente: “Este ano houve um leilão de vinhos no Brasil, em S. Paulo, para fins de beneficência, onde foi licitada uma garrafa de Barca Velha de 1999.” A corrida começou nos 600 reais (cerca de 200 euros) mas os interessados só desistiram quando um deles ofereceu seis mil reais (dois mil euros). “Ficou muito próximo de uma garrafa de Petrus” (considerado por alguns especialistas provavelmente o melhor vinho do mundo), que chegou quase aos oito mil reais e à frente de um Margot, cuja base de licitação fora superior.

No ano anterior, Luís Sottomayor participava numa recepção em Florianópolis, também no Brasil, em companhia do agente local da Casa Ferreira. Em determinada altura, o agente cometeu a imprudência (provavelmente calculada) de afirmar que tinha em reserva dez exemplares ‘magnum’ (1,5 litros) de Barca Velha. “Ainda o jantar não tinha acabado, já as dez garrafas tinham sido vendidas, por dois mil reais (cerca de 750 euros) cada uma”, conta Luís Sottomayor, que não recorda o ano da colheita.

Preços que só são possíveis quando se está perante uma raridade e que a Casa Ferreira entende manter: “temos garrafas de todos os anos, como é evidente, mas não estão à venda”. Quanto muito, são cedidos alguns exemplares se os pedidos chegam de onde não podem ser recusados: a Presidência da República, o Governo e outros poderes que, mesmo mais pequenos, merecem acolhimento. “Há algum tempo, a Câmara de Foz Coa pediu-nos duas garrafas para oferecer ao primeiro-ministro por ocasião de uma visita de José Sócrates à região.” O pedido foi aceite, as garrafas lá seguiram para a autarquia, a oferta terá tido lugar e Sócrates é hoje, se ainda não as bebeu nem deixou que se partissem nas lombas do défice e na derrapagem do fisco, possuidor feliz de dois exemplares do Barca Velha de 1999.

Da vinha ao estágio
Mas que magia é essa, que faz um vinho ser muito mais do que uma simples mistura de uvas tintas nascidas da aspereza dos solos rugosos do Douro, quase no rodapé do mundo? “Sei que estou perante um Barca Velha quando provo um lote logo na vindima e estou perante um vinho com personalidade”, diz, peremptório, Luís Sottomayor – como se a personalidade de um vinho fosse uma identidade que se pode escrever no rótulo de trás de uma garrafa. “Vinhos que revelam grande complexidade, estrutura e capacidade de envelhecimento” são o esteio do Barca Velha. Depois, é só “criar as condições para que o vinho evolua com sucesso: o melhor estágio na melhor madeira, e o engarrafamento na altura certa”, revela Luís Sottomayor, quase a querer dizer – e diz: “não temos alquimias” – que qualquer um pode fazer o Barca Velha.

Mas não pode. A Casa Ferreira – e mais ainda o grupo em que se insere, a Sogrape – tem um lote de enólogos dos melhores que é possível encontrar, mas não foi nenhum outro o escolhido para suceder a Fernando Nicolau de Almeida e a José Maria Soares Franco para segurar a tradição de perceber quando é que a natureza foi suficientemente sensível para permitir a produção desta raridade. “Fui escolhido, talvez, porque trabalhei com o Nicolau de Almeida e o Soares Franco”, explica Luís Sottomayor, com o semblante suficientemente carregado para se perceber que o tema não é dos que mais lhe agradam: não aceitou falar do Barca Velha 2000 para explicar que é um excelente enólogo.

Adiante, portanto, e voltando à garrafa, o que é que está dentro dela? “É um casamento, que se faz logo na vinificação, entre as castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e algum Tinto Cão, por esta ordem de importância” na mistura final. Que não tem que ser igual todos os anos. “O Barca Velha de 1999, por exemplo, tinha mais Touriga Franca e menos Nacional e a Tinta Roriz foi utilizada em maior percentagem”, recorda.

Como também não é sempre igual, longe disso, o volume produzido. “Do Barca Velha 2000 foram produzidas 26 mil garrafas mais 1.500 magnum”, revela Luís Sottomayor. O que se pode considerar uma produção pequena (ficando aqui uma revelação importante para os desafortunados que preferem investir no vinho em vez de o beber), quando comparada com o recorde da colheita de 1985 (60 mil garrafas).

O chão das melhores colheitas
Sempre igual é a região onde são produzidas as uvas que entram na alquimia (que parece que não existe) do Barca Velha: o Douro Superior. Mais propriamente a Quinta da Leda (com 160 hectares), comprada pela Casa Ferreira em 1979 e reflorestada de vinhas novas propositadamente para produzir Barca Velha. Até essa altura, o Barca Velha saía da Quinta do Vale Meão – que agora pertence a Francisco Olazabal, dela produzindo um vinho que leva o mesmo nome, sobre o qual nunca ninguém terá dito que é provavelmente o melhor vinho do mundo, mas se alguém disse, o disparate poderá ser bem pouco.

Perante a já muito próxima ocasião da chegada do Barca Velha 2000 ao mercado, impunha-se a pergunta: “Das colheitas que já foram vindimadas desde esse ano, já está a trabalhar no próximo Barca Velha?” A pergunta impunha-se, é certo, mas só serviu para Luís Sottomayor dar por terminada, delicadamente, a visita ao tema: o assunto é provavelmente o melhor vinho do mundo, não é para fazer conversa fiada.

Mas não se pense que o Diário Económico foi posto a andar sem mais rodeios: só para criar inveja ao mundo, diga-se que a meia hora seguinte foi passada à frente de um Porto da Casa Ferreira. De 1834.
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